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Rioja

Nas adegas da Rioja encontrei um surpreendente contraste entre o clássico e o moderno

 

Pode-se dizer que foi graças aos franceses que Rioja se tornou numa região produtora de vinhos de qualidade. Após o ataque da filoxera (praga que destruiu grande parte das vinhas da Europa no séc. XIX), os produtores bordeleses puseram-se à procura de uma região onde o bichinho não tivesse chegado e cujo terroir fosse semelhante ao de Bordéus.         

Terra onde a casta tinta Tempranillo é rainha, Rioja situa-se um pouco a sul do País Basco, limitada pela Serra da Cantábria e Rio Ebro que permitem o equilíbrio e bom desenvolvimento das vinhas a cada ano. Também a casta branca Viura é bastante apreciada na região – mas são os tintos encorpados, bem aromáticos e com madeira sempre presente, que eu mais vou recordar desta viagem.

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Eu já sabia que Rioja era essencialmente famosa pelas suas adegas design, projectadas por arquitectos conceituados, mas encontrei mais que isso: encontrei um harmonioso contraste entre o moderno e o antigo, uma história em constante evolução!

A adega El Fabulista, ou “o contador de fábulas”, é uma das poucas adegas subterrâneas que ainda existe na vila de Laguardia e estende-se por longos túneis debaixo de terra. Devido às condições especiais que este espaço confere, a produção da adega é bastante reduzida comparada com a maioria das adegas na Rioja. Tal facto permite que tirem o maior partido das técnicas tradicionais de vinificação e ainda da colaboração humana para quase todas as funções.  Para enriquecer ainda mais os seus vinhos, as garrafas são revestidas com rótulos coloridos, ilustrando as diferentes fábulas.

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Outra adega que faz questão de manter a tradição e também não recorre ao uso de tecnologias modernas é a Viña Tondonia. Aqui os métodos de vinificação e envelhecimento usados são os mesmos que já o seu fundador Lopez de Heredia utilizava em 1877. Dizem-se, por isso, uns românticos, acreditando que assim atingem a melhor qualidade dos seus vinhos – e não estão nada enganados! A adega é naturalmente fresca e as barricas descansam em tuneis subterrâneos – escuros, frios e bolorentos como se quer. As barricas, essas, são todas produzidas e recuperadas na própria tanoaria da adega, um lugar fascinante com cheiro a madeira tostada, onde os mestres tanoeiros praticam esta arte diariamente.

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Marqués de Riscal é também uma das mais antigas adegas de Rioja – fundada em 1858 –  mantém ainda bem conservados os edifícios principais dessa época. Em 2007, o hotel projectado por Frank Gehry veio criar um impressionante contraste de gerações, através de uma construção extravagante, colorida e metalizada – o total oposto de todas as vilas medievais que a rodeiam! Foi também a Marqués de Riscal que usou pela primeira vez as malhas douradas a revestir as garrafas dos seus vinhos topo de gama, como uma forma de evitar falsificações que, já nessa altura, eram uma preocupação para os grandes produtores.

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Outro exemplo de história e muita elegância encontrei na Marqués de Murrieta, que tem o orgulho de ser a primeira adega a ser criada na Rioja no ano de 1852. Esta visita foi especial e muito personalizada. Num grupo pequeno, fui visitar as vinhas e perceber o terroir desta região, as suas castas mais mediáticas e os diferentes sistemas de condução da videira. Fui ainda ver a adega de envelhecimento e garrafeira, onde todos os vinhos são armazenados desde a primeira colheita, mas, em vez dos habituais corredores bolorentos e húmidos encontrei salas modernas, com iluminação elegante por debaixo das barricas, quadros nas paredes e bonitas salas de provas e eventos.

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Se as adegas centenárias da Rioja me estavam a fascinar, a adega Baigorri surpreendeu-me igualmente, mas pela razão oposta! Trata-se de uma adega do séc. XXI, que conta com a mais alta tecnologia para produção dos seus vinhos. Entramos no primeiro andar e vamos descendo até ao piso -7 passando por todas as zonas de vinificação até terminar na sala de barricas e restaurante. A prova é feita com uma desafogada vista sobre as vinhas, onde o branco 2013 e o tinto Crianza 2012 são acompanhados por uns requintados pintxos que realçam as qualidades do vinho.

Uma viagem vínica à Rioja não fica completa sem uma visita a um dos principais museus de vinho do mundo, o Museo Vivanco de la Cultura del Vino. Aqui podem encontrar 6 pisos dedicados às origens do vinho e da Vitis Vinifera (espécie de videira mais plantada na Europa), aos métodos de vinificação ao longos dos séculos, à arte da tanoaria e uma extensa colecção dos mais diversos e originais saca-rolhas!

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E antes de terminar, porque a Rioja tem muito para contar e este post não me chega, recomendo a todos os apreciadores de vinho e viagens que visitem esta região, todas as adegas que poderem, que fiquem a dormir na encantadora vila medieval de Laguardia e não se vão embora sem comer umas “Chuletillas al sarmiento”, que é como quem diz, umas costeletas de borrego assadas nas brasas de lenha da videira! Ficaram convencidos?  😉

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